14 novembro 2011

tofo

Perto da cidade de Inhambane e perto de um dos destinos já visitados, a praia do Tofo, perto da vila com o mesmo nome, é destino quase obrigatório para quem gosta de praia – e, embora não seja o caso, de desportos de prancha. Por isso, desde há umas semanas, combinámos um fim de semana por aquelas paragens e programámos os 600 km de viagem até lá. E foi assim:
14:00, partida – virtude (?) dos atrasos femininos com as malas e os preparos de última hora, apenas hora e meia depois da hora programada. Coleman cheio e tempo não demasiado quente, o que vai ajudar na viagem.
14:50: distrito de Marracuene. Desta vez, talvez também por na véspera se terem comemorado os 124 anos da cidade de Maputo de muitos terem gozado uma rara ponte, atravessar Benfica e o Zimpeto revelou-se bem mais rápido que o habitual.
14:55: ainda no distrito de Marracuene, parados pela polícia por conduzir a 101 km/h numa zona de 60. Como o código da estrada foi recentemente revisto, os refrescos aumentaram de modo directamente proporcional às multas, tendo a brincadeira custado 1500 Mtn. De qualquer modo, pelo preço consegui saber onde estavam as patrulhas na província de Gaza.
16:20, travessia do Limpopo e da cidade do Xai-Xai. Aqui o clima está bem mais quente que em Maputo e sem o vento habitual da cidade.
17:10, num local não indicado pelos primeiros, parados por nova patrulha por conduzir a… 101 km/h numa zona de 60. Ou eles têm aquilo bem montado, ou eu tenho uma condução muito uniforme, foram mais 1500 Mtn e seguimos  viagem, supostamente com mais informações sobre as patrulhas seguintes já em território de Inhambane.
17:35, final de dia e em plena N1, na zona de Zanvamela (eu também não sei onde fica…), a cento e não muitos km/h: a luz do óleo acende. Ponto morto, motor desligado, deve ser nível de óleo baixo – o motor consome algum óleo – e parámos. Capot aberto, a vareta seca, toca de abastecer o cárter com algum… que cai todo para o chão: o bujão do óleo tinha saltado fora.
17:47. À quinta tentativa, atendem-me o telefone, “Procura aí no Google um serviço de reboques, um serviço de táxis, ou um rent-a-car aqui na zona do Quissico”, “Quissico?”, “Sim, fica a uns 150 km a norte de Xai-Xai”, “Ok, deixa lá ver, já te ligo”, mas os telefonemas de nada serviriam, o Google não sabe sequer onde fica o Quissico. A esta hora importa também comunicar com o hotel a informar que vamos chegar tarde (vamos?), mais um telefonema e do lado de lá dizem que falam português, inglês e coreano (coreano?), mas que preferem inglês, que estão mais habituados.
E foi em inglês que explicámos, que não iríamos chegar a horas, talvez ele pudesse aconselhar um táxi, um reboque, qualquer coisa, que era noite e não nos apetecia dormir no carro, ali naquele ermo, naquele traço de alcatrão que atravessa a selva; e, em inglês, aconselhou-nos não o táxi, mas a dormir ali mais perto, que ia dar-nos o telefone de um lodge no Quissico, que era mais prudente ficar por ali e não tentar fazer os restantes quase 200 km naquele dia. E, agora em português, mas com saudades daquele que falava coreano e inglês, conseguimos a custo uma reserva no tal lodge e o telefone de um tal de Horácio, que era primo de alguém e que tinha forma de nos rebocar.
20: 18 O Horácio, a quem interrompi o jantar em família, fez comigo o negócio do mês: cobrou 2500 Mtn para nos rebocar com uma corrente de uns 2 m (eu quase nem via o pára-choques da carrinha dele) os 22 km que nos separavam do Quissico e deixou que parássemos o carro avariado à porta de casa dele, que era “mais seguro, aqui ninguém mexe no carro”. Agora, já que estava incluído no preço, só faltava levar-nos até ao tal de Eco Logde da Lagoa.
22:00 Se ficar parado em plena N1 era cenário pouco agradável, sermos conduzimos por um desconhecido Horácio e pelo ajudante Alcides durante 45 minutos através de um caminho sem luz, sem alcatrão – basicamente, sem caminho, a ouvir o Enrique Iglesias a pleno pulmão, sem sequer saber se nos levava efectivamente ao lodge ou se nos conduzia a um ermo mais ermo ainda, onde fossemos desapossados dos nossos pertences, foi cenário que me retirou uns bons meses de vida.
O lodge, Eco, dizem eles, que é coisa da qual não sou adepto: sem electricidade, sem fechadura na porta do quarto, que aqui é tudo amigo e vive-se em paz, com redes a servir de janelas, com um balde a servir de duche, que tínhamos que voltar a encher “lá fora”, com uma cozinha comum em regime de “usas, escreves no caderno, lavas a loiça que usares e pagas no final” – mas pareceu um verdadeiro oásis ao fim de seis horas de um deserto imprevisto!


Às 6:00 da manhã seguinte estávamos a pé. Um português mais corajoso que eu (dormiu no lodge por escolha), deu-nos boleia na parte de trás da pick-up dele - em rigor, a “senhora pode ir lá dentro, para si é que não tenho espaço”, e ainda falam na igualdade dos sexos; de qualquer modo, foi um passeio agradável, e pelas 10:00, já de pequeno almoço tomado no local mais improvável da minha vida, uma sandwich de ovo estrelado (ainda estou vivo, os ovos não estavam estragados), estávamos junto ao carro a negociar com um novo interveniente, um mecânico que até sabia do assunto, que trouxe um óleo que custava metade do preço que me cobrou e um bujão que me custou ainda mais, mas pronto, naquele local e àquela hora não havia escolha e tinha mesmo que ser.
Para além do lodge, a lagoa do Quissico era linda e valia a pena regressar lá, agora com o óleo bem seguro dentro do cárter e com a necessidade de fazer um teste fora-de-estrada para garantir que podíamos regressar a casa. Entre a lagoa, o mar e a estrada de volta, acabou por ser um sábado bem sucedido!






O Tofo vai ter que ficar para depois…








1 comentário:

Margarida disse...

Adorei a descrição e ri com gosto do pormenores. O duche de balde é do melhor :) Fiquei com muitas saudades dessa terra linda e as recordações da minha viagem de Maputo para as praias do Xai-Xai ficaram ainda mais nítidas. Obrigada pelo "bilhete-postal". Que o próximo venha muito em breve!