06 dezembro 2010

25 novembro 2010

23 novembro 2010

inhaca

Depois de meses com a ideia de que seria necessário apanhar um avião para poder desfrutar de um local turístico "decente", bastaram duas horas e meia de barco para percorrer as cerca de 20 milhas que separam Maputo de Inhaca, ilha que encerra a baía, para entender que, afinal, existem quase paraísos aqui mesmo.

O barco, com capacidade para cerca de 80 passageiros, transporta seguramente 200 pessoas - aqui o "seguramente" seguramente que não significa segurança, embora a segurança seja acautelada pelo piloto, que a cada minuto verifica o estado de funcionamento do leme, fazendo repentinamente uns bordos de 30 graus ("crazy Ivan", para quem viu o Red October).
Fora esta peculiaridade, a viagem decorre sem sobressaltos, até que, à chegada, compreendemos que a maré baixa não permite que o navio encoste ao ancoradouro, sendo por isso necessário fazer uma transfega para embarcações mais pequenas - com capacidade para umas 6 pessoas e que tensportam seguramente 12, que têm que se descalçar quando chegam à praia. Na praia, ainda dentro de água, descalço e com as calças arregaçadas, aguarda-nos um agente da autoridade, que supostamente vem cobrar a "taxa da ilha" aos visitantes. Fugimos sem pagar.

O "Coco Loco" fica a 800 metros e é pela praia que lá se chega. A meio caminho, encontramos o Pedro, representante do nosso senhorio de fim de semana e que será quem vai dar-nos apoio, que vem ao nosso encontro e que se desculpa com "O barco chega sempre atrasado, não esperava que chegasse a horas hoje".

A partir desse instante, as bagagens e as preocupações desaparecem nas mãos do Pedro e do ajudante dele: basta dizermos o que queremos para jantar, quantas cervejas, que vinho, o tabaco também faz falta e pronto, agora a praia é toda nossa.
Para já, é praticamente impossível tomar banho, pois a maré está baixa e temos apenas uns 10 cm de água, águas mais profundas a uns 300 metros - e nestes 10 cm a água deve estar a mais de 40º, até chateia. Há então que esperar pelo menos uma hora até que a maré suba um pouco, tempo que nos serve para apreciar os ruídos da natureza densa e para olhar para um Maputo quase invisível no horizonte. Uma canseira...
Depois de irmos a banhos durante toda a tarde, a dourada de 2kg magnificamente grelhada espera por nós à luz das velas acesas pelo Pedro, o vinho e a cerveja estão à temperatura e é só a temperatura do ar insiste em não baixar. Para espanto, o insecto mais abundante não é o mosquito, pelo que tanto o jantar como a noite decorrem sem esse problema.

O dia seguinte começa cedo e é igual ao anterior, com a diferença que agora temos que voltar à vida real. Desta vez, a maré está alta, o que faz com que o pequeno bote de transfega nos venha buscar a casa - o navio maior continua sem atracar no cais, afinal não era por causa da maré. Crazy Ivan ao leme, Maputo pela frente.
Para voltar.

08 novembro 2010

notícias

Mesmo daqui, mesmo à distância, é sempre bom acordar com um resumo do que se passou na véspera lá longe.
Não que eu fique contente com o júbilo nortenho, nem com a soberba morcona, menos ainda com a possibilidade que se vislumbra de a história recente se vir a repetir, muito pelo contrário; também não é meu hábito sentir regozijo algum pela miséria alheia, naquela perspectiva de que "pimenta (piri-piri?) no cu dos outros para mim é que nem refresco"; mas desta vez, a notícia tornou um dia daqueles que são agora bem mais longos num bem mais suportável.
Bem hajam!

04 novembro 2010

Recomeçar é muito mais complicado que começar.

14 outubro 2010

ares


Até já...

13 outubro 2010

Seguramente que não é apenas por passar frequentemente perto do registo civil (praticamente do outro lado da rua relativamente ao local de trabalho) que assisto à passagem de muitos casamentos: é porque se celebram mesmo muitos, seja dia de semana ou fim de semana.
Embora tenha sido já convidado para um, ao qual não vou poder comparecer, nunca tive a oportunidade de poder apreciar por dentro aquilo que o cenário fantástico que todos podemos ver na rua promete poder vir a ser a boda.
O cortejo inicia-se com uma carrinha (é uma pick-up, e diz-se carinha, com um "r" apenas) que transporta a equipa de exteriores - o job deles é ir no exterior da carinha a filmar o resto do cortejo. As damas de honor vão noutra carinha, geralmente vestidas de igual e geralmente a ostentar a forma das generosas partes posteriores da anatomia. Visto a carinha ser o meio de transporte mais comum, o cortejo acaba por ser curto em viaturas, mas está sempre composto, dada a presença de alguns caros (com um "r") bem tchunados e que foram demoradamente lavados antes da festividade - mesmo que o dono do caro esteja todo tchonado.
A praia - ou os pontões da zona do Triunfo - são o destino de eleição dos noivos, quando se trata da sessão fotográfica.
É aqui que termina o meu conhecimento sobre este hábitos locais. Mas acho que um dia ainda vou infiltrar-me disfarçadamente numa destas celebrações para descobrir como é que terminam.

05 outubro 2010

laurentina





Primeiro bebe-se; depois, dança-se... por cima dela!

recursos naturais

Tal como tudo nesta terra, as obras demoram tempo. Muito.
Estavam programadas obras de beneficiação das condutas de abastecimento de água à cidade; segundo a autoridade competente, os trabalhos iriam demorar 3 dias, ou seja, teriam início na 5ª e terminariam sábado. Hoje, ao início de terça-feira, o normal fornecimento de água ainda não está reposto. Ou seja, Maputo está há cindo dias seguidos sem gota de água nas torneiras.
A cidade está preparada para estes contratempos, tendo a esmagadora maioria das casas depósitos com alguns milhares de litros para suprir as eventuais habituais falhas no abastecimento - a esmagadora maioria das casas que têm água, claro. Ao que parece, esta eventualidade foge ao habitual, sendo as necessidades de consumo de 5 dias claramente superiores às reservas instaladas - aqui, desde ontem que estamos a tomar banho com a água retirada da piscina...
Tenho a certeza que não irei ter sede, que água é coisa que pouco se bebe por estas paragens: mas tenho a certeza que o aroma habitual da cidade irá sofrer um agravamento generalizado,

04 outubro 2010

karaoke nights

São no mesmo sítio!


23 setembro 2010

nem tudo o que luz

Para ir até à Ponta do Ouro existem pelo menos duas hipóteses: uma é apanhar a estrada até Boane e virar para nascente, em direcção ao mar; outra, a que escolhemos, é apanhar o ferry e encurtar caminho, indo directamente para Sul.
O ferry não é propriamente um ferry. De facto, trata-se de um cargueiro de pequeno porte a cujo convés as viaturas acedem lateralmente a partir do cais; uma vez no convés, há que optimizar o espaço, pelo que são necessárias repetidas manobras para encaixar 10 viaturas numa zona onde cabem... exactamente 10 viaturas - e os passageiros que se amanhem entre os carros, mais apertados que menos.
A minha viagem foi efectuada entre o tejadilho do meu carro e a caixa de carga da camioneta que estava ao meu lado: era sair pela janela do carro, subir à caixa de carga da tal camioneta, carregada de tijolos, e então aceder ao tejadilho do meu. Dali tinha uma visão mais desafogada e seria mais simples saltar para a água caso as coisas dessem para o torto - ou para o fundo, no caso presente, nada de assim tão improvável dada a quantidade de viaturas e a tipologia da carga transportada.

  
Passados os cerca de 20 minutos que a viagem demora até Catembe, podíamos agora ter uma nova visão de Maputo, o skyline, qual Manhattan do Índico. Na verdade, a cidade é de uma enorme beleza, mais facilmente visível à distância, já que evitamos ver a falta de conservação dos prédios, o lixo nas ruas e o forte e quase omnipresente cheiro a urina - para além da evidente escassez de instalações sanitárias, este pessoal tem pouca noção de decoro e de conveniência, fazem onde e quando lhes apetece e virados exactamente para o lado onde estavam virados no instante em que lhes apeteceu.
Ao fim de poucos quilómetros, a paisagem começa a fazer-nos questionar a opção de viajar até tão longe para ir até à praia. Ainda na parte sul da baía, a vista deslumbra e apetece parar o carro e não andar nem mais um metro, ficar ali a tarde inteira.
Mas, obstinadamente, prosseguimos até ao nosso destino mais remoto, um "algarve" cá da zona, reputado como local paradisíaco e de visita obrigatória. E lá nos fizemos à estrada...


...e ao pó...

... e ainda a mais pó...


... até que, sem qualquer aviso ou sinalização prévia, a estrada acabe num gigantesco buraco.


Algumas peças teimam em desapertar-se e em querer ficar pelo caminho, o que, à falta de ferramenta adequada, obriga a trabalho manual bem oleado... e bem oleoso...


Resolvida (aparentemente) a questão, terra pela frente, longas linhas rectas de estradão de terra batida.


E mais estradão, e mais terra...


... e mais terra, e as peças a desapertarem-se de novo...


...e ainda mais terra...


... e outra vez terra...
Não, espera! Ali é areia! E o estupidamente moderno e eléctrico comando da tracção integral não funciona, apenas o bloqueio de diferencial: e agora, como fazer?
Mais uma vez debaixo do carro, lá se conseguem engrenar manualmente as rodas da frente, embora apenas na opção de baixas; ora isto safa-nos da areia, mas limita-nos a deslocação a um máximo de 40 km/h.


Resolvida a questão da tracção, temos agora o problema da orientação: se as placas não nos fizeram falta até agora, que era sempre a direito e a auto-estrada de terra não tinha variantes, as múltiplas opções de caminhos e carreiros, todos de igual dimensão e aparente frequência de uso fazem agora duvidar qual o caminho a seguir. E são já 16h30, falta uma hora para anoitecer... não vai correr bem...

A primeira placa depois de quatro horas diz "Ponta do Ouro", mas continuamos sem ver o mar. Embora ainda haja luz, o Sol já desapareceu no horizonte: parece que chegámos mesmo a tempo...


... e que a viagem compensou!


Na manhã seguinte, as primeiras impressões da véspera confirmaram-se. A praia é fantástica, quase deserta - sim, o Verão e a época alta estão ainda a pelo menos um mês de distância. Pena não exista manutenção nem limpeza: das ruas, das casas, da água corrente, da rede eléctrica - nem das estradas de acesso, que até há 35 anos eram alcatroadas e permitiam que os cerca de 100km que separam este local da capital fossem percorridos em pouco mais de uma hora.
De referir que a temperatura da água era excelente, embora o banho fosse desaconselhado: um "cardume" de alforrecas de 10 cm de diâmetro e de cauda azul fez questão de aparecer na praia exactamente naquele dia.


No regresso, tive que ir até ao estrangeiro - eram 15km e eu tinha que cumprir a minha rotina do carimbo mensal. A ligação internacional é esta...


21 setembro 2010

SHT


- Meu brada, segura p'ra eu subir.


- Ya, sabes, eu assim sinto-me maningue seguro.
Acho que agora vamos sempre fazer dessa maneira...


... mesmo que seja no segundo andar...



reggae nights

São no Gil Vicente

05 setembro 2010

o outro lado de cá

Bateu no vidro da minha janela e eu abri. Eram 10 da noite e eu tinha ido buscar um amigo para ir comigo a uma jam session no Gil Vicente.
- Senhor...
"Mais um...", pensei.
- Diz.
- Senhor, não tenho transporte e agradecia uma boleia até à estátua, mesmo que seja na caixa, fora do carro.
- Não posso, vou para a Baixa.
- Senhor... eu não gosto de estar a pedir, mas o meu filho tem fome...
Mais dois minutos de conversa e fiquei a conhecer parte da história que o Jossias não me queria contar. Dei-lhe o meu telefone e disse-lhe para me ligar na manhã seguinte: convidá-los-ia para almoçar e logo teria ocasião para aferir a veracidade do relato que me era feito. Havia, talvez por não me chamar "patrão" nem "boss" nem outra qualquer expressão do bairro, qualquer coisa que me dizia que este era diferente de todos aqueles que me tinham abordado.

Jossias Jordão Moisés tem 35 anos, "feitos no passado dia 2"; mora com o filho Jaze no bairro da Munhuana, onde aluga um quarto por 500 paus, onde não há electricidade e onde cada balde de 20 litros de água lhe custa um Metical quando quer "tomar banho". Quando se sentam à mesa, Jossias reza uma oração cristã, na qual é fiel e convictamente acompanhado pelo Jaze, embora pela forma como comeram o frango me tenha ficado a parecer que são poucas as vezes em que têm ocasião para agradecer a Deus pela refeição que vão tomar.
Jossias perdeu mulher e filha no segundo parto, na cesariana mal sucedida na cidade de Chimoio. Decidiu vir para a capital, onde, como tantos, presume ter maiores hipóteses de sucesso, terminando o curso que lhe permitirá leccionar a disciplina de Inglês no ensino secundário.
Mas a vida não é tão fácil quanto isso, num sistema tão burocratizado que seguramente lhe irá garantir uns largos meses de espera até que possa ver deferido o requerimento para aceder à escola de formação onde pretende terminar a certificação profissional (o inglês dele é excelente); numa cidade tão grande que ainda não lhe permitiu levar o filho a ver aquelas zonas em que "é tão bonito, papá, porque ainda não me trouxeste a ver o mar"...
Já no carro, de regresso à zona onde mora, Jossias confessou por detrás de uma lágrima menos bem disfarçada que a minha, que não tinha acreditado que o almoço alguma vez iria acontecer, mas que discutiu o assunto com o Jaze e foi o miúdo quem o convenceu a ligar-me: "Papá, branco não mente!"

Jaze completa nove anos dia 12, o próximo domingo. Vai almoçar a Catembe com uma t-shirt, uns calções e uns ténis novos; e vai tomar banho naquele mar que tanto o fascinou - mas só se o medicamento que o pai finalmente conseguiu comprar lhe tiver já resolvido aquela tosse cavernosa que lhe retira parte do brilho daqueles olhos curiosos, que esconde atrás das mãos quando falo com ele, dizendo "tenho vergonha"...

03 setembro 2010

o dia seguinte




Imagens gentilmente cedidas pelo telemóvel da Bi.

01 setembro 2010

idade

Dizia-me um velho velho conhecido que encontrei casualmente aqui em Maputo, do alto dos seus 80 anos e detrás daquela barba branca, mais branca que a minha, que aproveitasse bem, que "esta terra dá-nos anos de vida".
Hoje, apesar de hoje e apesar das saudades de tudo o que não pude trazer comigo, hoje ele tem toda a razão.
Polícia abre corredor para a tripulação da TAP chegar ao aeroporto
- 1-Sep-2010 - 11:06
A situação no aeroporto de Maputo, Moçambique, tende a normalizar porque foi aberto um corredor para permitir que a tripulação da TAP que está retida no hotel aceda ao local, disse fonte do Governo.
“Foi aberto um corredor para que a tripulação da TAP que chegou hoje possa sair e a que a vai substituir possa chegar ao aeroporto”, disse fonte do gabinete do secretário do Estado das Comunidades.
Um avião da TAP está retido em Maputo porque a tripulação não conseguia chegar ao aeroporto devido aos protestos que decorrem hoje nas ruas moçambicanas.
A mesma fonte disse ainda que a situação no aeroporto “tende a normalizar” e que todos os portugueses que estão no local “estão bem”.
“Não há motivos nenhuns para alarme em relação aos portugueses”, reiterou.
O protesto de hoje, que começou de madrugada com a “greve” dos transportes públicos (chapas), deve-se ao aumento do custo de vida.
Hoje aumentam os preços da água e da luz.
Há relatos de estradas cortadas e lojas vandalizadas, a polícia está a disparar contra os manifestantes e há um número não determinado de feridos.
No centro da cidade de Maputo não há praticamente trânsito e as lojas foram fechando ao longo da manhã, com as pessoas a tentar agora regressar a casa.

Ruas desertas e bloqueadas em Maputo e protestos feitos à lei da pedra
- 1-Sep-2010 - 11:10
As principais avenidas de Maputo estão desertas de carros e pessoas, que se juntam nas entradas da capital, onde não se pode passar e crianças circulam com pedras nas mãos: “tia, se queres passar, leva uma”, gritam.
Na zona do Alto Maé, na Avenida 24 de Julho, uma das principais artérias da cidade, há também relatos de um carro que foi incendiado e avisos de que se pode tornar “uma questão rácica”.
“Se passas, vão pensar: porque está uma branca a ir trabalhar?”, contou um dos manifestantes que, acrescentou, “o pior é que estão a usar crianças”.
As escolas estão fechadas e grupos de jovens circulam na avenida, alguns com pedras na mão, junto aos caixotes do lixo derrubados. “Tia, se queres passar, leva uma”, grita um deles com um paralelo na mão.
De acordo com a imprensa local, duas crianças terão sido mortas na zona do aeroporto, onde as manifestações começaram bem cedo, em protesto pelos aumentos dos preços dos bens essenciais.
Na Baixa da cidade, as Avenidas 25 de Setembro, Guerra Popular, Karl Marx, por exemplo, estão calmas. Apenas alguns carros circulam, a maior parte deles da Polícia, e as pessoas juntam-se à porta das lojas fechadas com grades.

25 agosto 2010

aqui ao lado

Recebi há dias um mail com um texto alegadamente escrito pelo Michael Richards, o famoso Kramer do Seinfeld, que falava do complexo do racismo nas comunidades não brancas dos Estados Unidos, denominado "Orgulho em ser Branco", que transcreve o discurso de defesa dele em tribunal quando acusado de fazer comentários racistas numa peça. Eu chamo ditadura das minorias ao tema que ele refere - claro que "minorias" são todos os grupos que supostamente são ou foram alvo de discriminação em algum momento da história, não necessariamente uma minoria efectiva.
Lembrei-me desse texto no final da semana passada.

Chegado ao aeroporto de Joanesburgo, verifiquei que a South African Airways tinha feito asneira com a minha mala - basicamente, perdeu-a, embora eu soubesse do paradeiro dela. Perante tal facto, dirigi-me a um balcão da SAA, onde apresentei o meu caso e onde estavam já duas pessoas a reclamar exactamente da mesma situação. Para esclarecer, eu, embora não muito claro, sou ainda considerado branco, e era o único dos três reclamantes que apresentava essa característica. Naturalmente, perante a inoperância da funcionária, negra, a conversa começou a azedar, o que fez com que ela dissesse aos dois queixosos estrangeiros (e homens, era uma sul-africana negra, a outra queixosa), que não queria saber do problema deles, trataria apenas de resolver o problema à conterrânea. Disse-o alto e bom som, sem quaisquer reservas e sem receio de ser ouvida - diria até que com algum orgulho, e fiquei eu e o queixoso remanescente, Angolano, a olhar um para o outro, incrédulos.
Sei que não foi uma questão de pigmentação que motivou a funcionária; não sei se terá sido uma questão de género, já que a resposta foi dirigida a homens: mas imagino que, caso houvesse inversão de papéis, fosse que inversão fosse, o cenário e as consequências seriam bem diferentes e estaria a esta hora um funcionário branco xenófobo, ou um funcionário homem desrespeitador dos direitos das mulheres em sérios apuros.

Finalmente, depois de alguns quilómetros de corredores e controlos de indentificação, conseguimos contactar uma outra funcionária, branca, que garantiu que eu passava um fim de semana com roupa interior em condições.

24 agosto 2010

just a glimpse

Dia 50

11 agosto 2010

10 agosto 2010

from a distance

Hoje falei com Sófia e com Estocolmo.
Com um moreno feio (mas bom rapaz) e com uma loira lindíssima.

09 agosto 2010

devagar - part III

Dia 40.
Desde que cá cheguei que ando a tentar contratar carro, casa e telemóvel. Hoje fui levantar o carro.
Só o consegui fazer porque tenho na entidade vendedora quem confie em mim, que o processo de compra vai ainda demorar pelo menos mais uma semana a ficar concluído, entre carimbos, assinaturas, certidões e certificados, confirmações e garantias. Telemóvel... o contrato ficou concluído há uma semana mas... não há aparelhos em stock e talvez a meio desta semana - aqui entre nós, vai ser bem mais que isso. Entretanto vou usando um daqueles descartáveis que comprei à chegada.
Casa?
Certo que tenho um padrão de exigência a cumprir, não pelo luxo ou pela dimensão, mas porque quero trazer companhia. A verdade é que aqui existem extremos, e entre o muito bom - e demasiado caro para mim - e o muito mau, há muito pouco. Para além disso, tal como em muitas das actividades locais, estamos a tratar de um mercado acertadamente denominado de informal. que funciona na rua, com informadores de informadores que conhecem alguém que tem um vizinho que tem uma casa para alugar, impecável, fez obras nem há um mês e está pronta a habitar. Diria que em 80% dos casos, os informadores enganaram-se na rua, a casa já foi alugada, a renda não era aquela, os proprietários moram na casa que está para alugar - que a desocupam caso encontrem inquilino - ou, simplesmente a casa não existe de todo.
Para já, moraria apenas em duas das talvez vinte casas que consegui ver, em meia centena de tentativas - mas consegui conhecer os hábitos de lavagem de roupa de uma dúzia de famílias locais.


Para enquadrar as ordens de grandeza das rendas: apartamento num 10º andar sem elevador (ou com elevador das 7h às 10h e das 17h às 22h), em zona considerada fora do perímetro de segurança pode custar 400 euros mensais; apartamento dentro do perímetro, com elevador em funcionamento pleno e com gerador de back-up ronda os 1000 euros; vivenda geminada em zona intermédia, em estado médio de conservação, cerca de 1600 euros; vivenda em zona nobre da cidade, 3000+ euros mês.


06 agosto 2010

devagar - part II

É a primeira vez na vida que oiço alguém pedir-me para andar mais devagar. A pé!

31 julho 2010

wheels

 Na questão da escolha do carro convém ter em atenção que:

  • as estradas principais apresentam um grau de conservação razoável, sendo inclusivamente cobradas portagens em algumas delas, convenientemente alcunhadas de auto-estradas; fora isso, temos que enfrentar estradas de terra batida;

  • as ruas principais das cidades são geralmente largas e bem pavimentadas, mas fora dos trajectos preferenciais o alcatrão que sobrevive deve ser pelo menos da minha idade (i.e., jurássico - melhor antecipar-me aos comentários...), e faz-nos ter saudades dos caminhos de terra extra-urbanos;

  • dados os hábitos de condução daqui nas ultrapassagens e regras de prioridade, onde impera a criatividade, recomenda-se que, mais do que estilo ou conforto, dimensão;

  • a fiscalidade sobre as viaturas novas agrava o preço destas quase em 100% face aos preços europeus, o que torna acessível pouco mais que um segmento A - ou um B coreano ou malaio;

  • as viaturas usadas, muitas delas estreadas por um distante cidadão nipónico, apresentam uma idade média que ultrapassa facilmente os 10 anos - apesar do bom estado aparente, face à benevolência do clima local.
nisto. Daqui a uns dias, claro, que ainda só passaram 3 semanas desde que se começou a tratar do assunto.

29 julho 2010

nightfall

28 julho 2010

26 julho 2010

dentro da lei

Aqui nesta terra, enquanto não tiver a situação devidamente legalizada, sou oficialmente um turista e, enquanto turista, tenho a minha presença limitada a 30 dias de permanência - de cada vez.
Em resumo, passados uns 20 e tal dias de presença, achei por bem atravessar a fronteira mais próxima para carimbar o passaporte e manter-me na legalidade. Peguei no transporte alugado que uso há cerca de uma semana (nos primeiros dias foi-me gentilmente cedido um elegante cabrio para as minhas deslocações, mas mais sobre essa viatura numa outra ocasião), e, sem mapa nem placas que me orientassem, já que os primeiros são inexactos e as segundas inexistentes, lá me fiz ao caminho, esperando que o Sol não se coibisse de me orientar, escondendo-se atrás de uma improvável nuvem.
A viagem correu sem grandes sobressaltos, duas correcções de trajectória, as cabras não se atreviam a atravessar a estrada, as vacas viam-se bem do fundo das longas rectas, o pior eram mesmo os condutores que, nas zonas mais movimentadas, só não nos ultrapassam por cima - de resto, qualquer lado vale, berma e traços contínuos são coisas que estão lá mesmo para serem pisadas e usadas.
Ao fim de duas horas e uns 90 km de surpreendentemente bem conservado alcatrão, eis que Goba - Fronteira se deixa adivinhar com placas em inglês, que avisam dos perigos das curvas.
O posto fronteiriço? O pior cartão de visita não podia existir para um país que se deixa conhecer pela primeira vez a quem vem de fora: os buracos no pavimento eram suficientes para albergar o eixo dianteiro do modesto grupo B da rent-a-car e seguramente que o meu cão recusaria dormir na guarita em que os guardas se abrigavam do calor do final da tarde.
Uma vez no interior do posto, comecei a preencher o impresso de saída do País, quando sou abordado pelo elemento do SEF local que enceta diálogo:
-Vais à Suazi? (e peço desculpa por não conseguir replicar aqui o sotaque).
Esperto, o gajo, pensei: nesta fronteira não devo ir a outro lugar...
-Sim, vou à Suazi, repliquei, tentando imitar o sotaque o melhor que consegui, cá o pessoal fica satisfeito por entender que falamos a mesma língua.
- Se me deres refresco deixo-te passar sem preencher papel!
Sorri.
- Está bem, dá cá o passaporte que eu ponho o refresco lá dentro - e lá vão 10% de um salário mensal.
Ele abre o passaporte e vê o guito.
- Não é muito... podias dar mais...
- Não é o habitual?
- Sim, mas podias dar mais... Mas está bem, chega. Podes passar.

E pronto, lá fomos, saímos do País, terra de ninguém, faltava entrar no Reino da Sauzilândia.
Novo posto fronteiriço, muito melhor aspecto - e pessoal muito mais evoluído, até falavam inglês e tudo.
- You're ok to go in, your friend needs a visa. You go in, drive around the immigration office, wait 10 minutes, come in for an exit stamp and you can drive back in Moza...
O idioma era outro, mas o sotaque definitivamente o mesmo. Aparentemente nem todos os cidadãos da CE têm os mesmos direitos e uns de nós precisam de visto para lá entrar.
Do outro lado... um problema: alguém que saiu de um País, nunca entrou noutro e tem que voltar para o País de onde saiu... o guarda que verifica estas coisas vai seguramente chatear.
- Where is your stamp?
- Well, my friend needs a visa, so she wasn't allowed in the country...
- No way, she must have had stamped the passport, I'll have to take her in and you drive back alone.
- Sorry, you can't do that: need her to do my dishes.
O gajo sorriu e convenceu-se mesmo que me ia causar transtorno, turned a blind eye e lá fomos.

Nunca tinha estado só 10 minutos num País (demorei um pouco mais do que isso a atravessar a Bélgica...) e, mais curioso que isso, conheço agora alguém que saiu de um País, voltou a entrar sem ter ido a lado algum - segundo o passaporte, out of nowhere. Eu sabia!

O ter falhado no preenchimento de um impresso de exportação do carro (sim, o pessoal aqui complica) fez com que o meu regresso fosse ilegal: tinha agora que declarar a importação do carro, o que me valeu um (ler com sotaque) "Estás fodido pá" do novo guarda, que naturalmente se prontificou a resolver tudo a troco de refresco. Refresco pago, um "A gente vê-se no Algarve, brother" deixou-nos no caminho de regresso a casa.

Um dia normal, para um cidadão cumpridor.

21 julho 2010

conversas mornas

19 julho 2010

o lugar da felicidade



Não tem mesmo lugar certo.

Encontrei-a enquanto esperavamos o ferry para a Macaneta, estampada no rosto desde miúdo, que fazia uns pequenos objectos a troco de uma moeda de 5Mtn, ou de uma esferográfica Bic "para levar para a escola".

dias lentos

12 julho 2010

aska

Peixe cru. Nem dá para acreditar que é talvez melhor que do outro lado.

08 julho 2010

av. da guerra popular

A 2ª circular é para meninos.

devagar

Às vezes tenho que fazer um esforço e olhar com atenção para ver se eles estão realmente a mexer-se. Acho que vou colocar música no escritório para provocar algum movimento.

07 julho 2010

first impressions

"Estranho" é a melhor palavra para descrever. Não posso dizer que seja mau, não posso mesmo dizer que seja bom: é diferente - muito diferente, mesmo.
É um local de contradições e enormes contrastes, onde a vida não tem pressa e onde não vale a pena ter pressa, que a velocidade é sempre a mesma, com ou sem ela; é um lugar mal tratado pelo tempo, que um clima generoso tratou, ainda assim, de conseguir preservar; é talvez por causa da generosidade do clima que não há pressas e que não é assim tão importante que se viva a uma velocidade maior que esta.
É um local complexo, feito de pessoas simples; é um local simples onde alguns são ainda complexados; é um lugar onde nos olham com suspeita, com inveja e com esperança, onde os complexos relacionados com o passado se fundem no trato deferente e se confundem na desconfiança da intenção.
É um lugar que precisa de ser respirado, vivido e sentido para ser devidamente aprendido.
É agora o meu lugar. E vou tratá-lo como tal.

02 julho 2010

46 e um dia

Deve ser mais ou menos a esta hora que chego a este lado.
Do outro lado deixaram de existir algumas das coisas que me são necessárias e também porque continuam a existir outras com as quais não está a ser fácil conviver. Ficou muito, o mais importante - mas deixo com a certeza de que já não faço a falta que um dia fiz e com a convicção de que a minha vinda vai também permitir a quem deixei do lado de lá ter mais e melhores oportunidades.
E a mim mesmo. Nem que seja porque a felicidade não tem lugar certo. E talvez possa mesmo estar aqui.